Flávio e Lula, conta por conta: a comparação das duas contas. A conta de Lula
A conta do patrimônio de Flávio Bolsonaro, de 2003 a 2026
Um experimento com números públicos. Somamos o que Flávio e a esposa ganharam em salários, estimamos quanto a família gastou para viver em três cenários e comparamos com o patrimônio que ele declarou à Justiça Eleitoral e com o que ele comprou e pagou.
Valores em reais da época, sem correção pela inflação. Premissas e fontes no fim da página. Isto é uma conta, não uma acusação: onde ela não fecha, a diferença pode ter explicações que não são públicas.
No total, a conta fecha ou não fecha?
A linha azul é o máximo que a família poderia ter acumulado se guardasse tudo o que sobrou de cada salário depois dos gastos. Os pontos laranja são o patrimônio que Flávio declarou em cada eleição. Quando um ponto fica acima da linha, o declarado é maior do que o salário permitiria juntar.
Todas as combinações, em agosto de 2026
Máximo que dava para ter e diferença para os R$ 8,19 milhões declarados. Em verde, quando a renda do casal cobre o declarado; em laranja, quando falta.
Ver a conta ano a ano
Onde a conta não fecha
No total da vida, o resultado depende das premissas. O que os documentos mostram são momentos em que o dinheiro gasto não aparece na renda nem nas contas bancárias. As etiquetas seguem as do guia: documentado está registrado em documento; alegado é conclusão do Ministério Público; estimado é conta desta página.
- 2005-2006
Um apartamento de R$ 350 mil com dois anos e meio de mandato
estimadoEm 2006, Flávio declarou R$ 385 mil. A maior parte era um apartamento em Botafogo comprado em 2005 por R$ 350 mil, segundo ele. Até julho de 2006, o salário líquido de deputado (cerca de R$ 7,2 mil por mês) permitia juntar, no máximo, . Só chega perto se ele vivesse com o mínimo do DIEESE e aplicasse todo o resto no CDI.
Não se sabe se o apartamento foi financiado ou se houve ajuda da família; qualquer uma das duas coisas fecharia a conta.
Fontes: série do TSE (Poder360, 13/8/2026); compra de 2005 contada por Flávio ao Estadão (26/5/2019).
- 2008
Doze salas pagas com dinheiro que não saiu da conta dele
documentadoEm dezembro de 2008 foram pagos R$ 262.298,68 por 12 salas comerciais na Barra. Naquele mês, Flávio sacou só R$ 21 mil. Segundo o MP, cerca de 65% foram pagos com cheques de terceiros e depósitos em dinheiro.
Denúncia, pp. 16-17: ver o trecho marcado.
- 2010-2014
O próprio MP fez a conta e achou R$ 977,6 mil a descoberto
alegadoSomando salários, resgates, empréstimos, doações, vendas de imóveis e o financiamento, e tirando os gastos rastreados nos extratos, o MP chegou a um saldo negativo de R$ 977.611,26. Só em 2012 foram R$ 682 mil, o ano dos R$ 638 mil em dinheiro “por fora” na compra de dois apartamentos em Copacabana. A conta do MP não incluiu condomínio, luz, viagens, babás nem restaurantes.
documentadoNo mesmo período, Flávio declarou ter doado R$ 733.390 à própria mãe (2010), e Fernanda declarou ter recebido R$ 380.613 da sogra (2012).
Denúncia, pp. 51-59: saldo a descoberto, depósitos de R$ 638,4 mil, doação à mãe.
- 2014-2018
Dinheiro vivo nas contas e nos boletos da família
documentadoEntre 2014 e 2018, a conta de Flávio recebeu 141 depósitos em dinheiro, R$ 275.500, muitos de exatamente R$ 2 mil. Mensalidades escolares das filhas e o plano de saúde somaram R$ 247.570,51 em boletos sem débito nas contas do casal. Em outubro de 2018, a câmera de uma agência filmou Queiroz pagando dois desses boletos em dinheiro. Em 2017, o Coaf registrou 48 depósitos de R$ 2 mil (R$ 96 mil) em cinco dias.
Denúncia, pp. 44 e 272-276: depósitos fracionados, boletos, o vídeo. Coaf: Folha, citada pelo Poder360 (22/1/2019).
- 2015
R$ 600 mil do casal na loja de chocolates, R$ 200 mil em espécie
documentadoA loja abriu com R$ 800 mil: R$ 400 mil do sócio, R$ 350 mil de Fernanda e R$ 50 mil de Flávio, que depois pôs mais R$ 200 mil em dinheiro vivo. A renda líquida do casal naquele ano era de cerca de . O MP investigou a loja por suspeita de lavagem, mas ela não entrou na denúncia.
Estadão (Jornal de Brasília, 10/11/2023); denúncia, p. 60.
- 2019-2026
A casa de Brasília: cerca de R$ 4 milhões pagos ao banco em três anos
estimadoA casa de R$ 5,97 milhões teve R$ 3,1 milhões financiados pelo BRB em 30 anos. A dívida foi quitada até março de 2024 com seis pagamentos extras que somaram R$ 3,4 milhões, além das prestações de R$ 18,7 mil. Em 2026, Flávio ainda declarou R$ 1,77 milhão em aplicações. Contando os salários do casal, o dinheiro da loja e a venda do apartamento da Barra, faltam para fechar a conta (detalhes abaixo).
Flávio diz que é advogado e empresário e que todo o dinheiro é lícito. A Polícia Federal apura as condições do financiamento, com juros abaixo da média do banco, no inquérito sobre o BRB e o Banco Master.
Estadão (6/3/2021); Poder360 (1/6/2022); Congresso em Foco e O Globo (3 e 4/7/2024); Diario de Pernambuco (2/10/2026); TSE 2026 (Metrópoles, 13/8/2026).
2019 a 2026, linha a linha
De onde poderia ter vindo o dinheiro e para onde ele foi, de fevereiro de 2019 até a declaração de agosto de 2026. O cenário de gastos é o escolhido no alto da página. Mude os valores que não são públicos para ver quanto precisaria ter entrado.
Entradas
Saídas
O que pode explicar a diferença
- Bens em nome da esposa. O casal é casado em comunhão parcial, mas a declaração ao TSE lista só o que está em nome de Flávio. A cobertura de Laranjeiras, por exemplo, foi trocada em 2017 por um apartamento e uma sala; o apartamento nunca apareceu nas declarações dele.
- Rendas fora do salário. Honorários de advocacia, lucros da loja entre 2015 e 2020 e a renda de Fernanda como dentista podem ser maiores do que os valores públicos usados aqui.
- Ganhos com imóveis. As vendas declaradas de 2010 a 2014 deram cerca de R$ 2,1 milhões de lucro. O MP sustenta que parte desse ganho foi simulada (Copacabana); se for verdade, o lucro real foi menor.
- Empréstimos, ajuda da família e valor de compra. A declaração ao TSE usa o valor de compra e não mostra dívidas, então um bem financiado pode aparecer pelo valor cheio.
O que esta conta não é
- Não é prova de crime. É uma estimativa com dados públicos e premissas à vista, que podem estar erradas.
- As provas da denúncia das rachadinhas foram anuladas (STJ, 2021; o STF anulou relatórios do Coaf) e o caso foi arquivado (TJ-RJ, 2022). Em 2025, o ministro Gilmar Mendes, do STF, negou os recursos do MP para reabri-lo. Flávio nega irregularidades e nunca foi condenado.
- A investigação da PF sobre o financiamento do BRB está em andamento e não tem conclusão.
Premissas
- Salário de Flávio. Subsídio bruto de deputado estadual (75% do de deputado federal) de 2003 a janeiro de 2019 e de senador depois, com 13º. De 2010 a 2014, a renda bruta declarada ao IR citada pela denúncia (p. 51), um pouco maior. Líquido de 75% como deputado e 73,5% como senador (R$ 33.763 brutos davam R$ 24,9 mil líquidos, segundo o Estadão).
- Renda de Fernanda. De 2010 a 2014, a declarada ao IR (denúncia, p. 51); depois, R$ 8.650 por mês, valor que aparece no processo sobre o financiamento da casa. Líquido de 85%.
- Mínimo para viver. O salário mínimo necessário do DIEESE, calculado para 2 adultos e 2 crianças, que equivalem a 3 adultos: um terço dele para Flávio solteiro (2003-2009), dois terços para o casal (2010-2013) e o valor cheio para a família de quatro (desde 2014).
- Gastos documentados. O mínimo mais os gastos que a denúncia registra, a preços de 2016: escola das filhas (R$ 4 mil por mês, desde 2014), plano de saúde (R$ 950, desde 2013), duas empregadas (R$ 40 mil por ano em 2014) e IPTU (R$ 800). De 2003 a 2009, mais dois terços do mínimo para moradia e transporte. Corrigidos pelo próprio índice do DIEESE.
- Alto padrão. Os gastos documentados vezes 1,5, para cobrir o que o MP deixou de fora: condomínio, viagens, carros, restaurantes, babás.
- Rendimento. “Só a inflação” faz o dinheiro guardado acompanhar o IPCA, como se ficasse parado num imóvel; “CDI, sem o IR” aplica 85% do CDI de cada ano. Todas as opções supõem que nenhum real foi gasto além do cenário, então mostram um máximo.
- Ganhos e perdas documentados. Lucro declarado nas vendas de imóveis (salas da Barra, dois apartamentos de Copacabana, apartamento de Botafogo), perda na bolsa, doação à mãe e da sogra, ITBI e IR sobre ganhos, e o saldo da loja de chocolates. A opção do “por fora” tira R$ 638.400 em 2012, o dinheiro vivo que o MP diz ter sido pago a mais em Copacabana.
Fontes
- Denúncia do MPRJ (2020), no guia de leitura, com cada página marcada
- Poder360: série do patrimônio declarado de 2006 a 2026
- Metrópoles: lista de bens declarados em 2026
- Brasil de Fato: lista de bens declarados em 2018
- Poder360: o carro de 2002 e os depósitos registrados pelo Coaf em 2017
- Estadão (Terra): o apartamento de Botafogo, de 2005 a 2014
- CNN Brasil: a troca da cobertura de Laranjeiras, segundo o MPF
- Estadão (Jornal de Brasília): a loja de chocolates
- Estadão (Bem Paraná): entrada, ITBI e prestações da casa
- Poder360: as rendas apresentadas no processo do financiamento
- Congresso em Foco: a quitação com seis pagamentos extras
- Diario de Pernambuco: a PF e o financiamento do BRB
- DIEESE: salário mínimo necessário, IPCA anual e CDI anual
- Congresso em Foco: subsídio de deputado em 2003 e 2007, em 2011 e de senador de 2023 a 2025
Experimento independente, feito só com documentos e reportagens públicos. Sobre as filhas, usa apenas o que a denúncia registra como despesa da família.